O mundo sem gerúndio

Em algum lugar do passado na faculdade de jornalismo, o professor de Técnicas de Redação, Nilson Lage, ensinava as normas para se chegar a um leve texto de reportagem. Orientava sobre a importância de parágrafos curtos, de se cortar prolongamentos na narrativa dos fatos, e aí citou:
– É aconselhável evitar o gerúndio.

Fiz da sugestão uma obrigação. Passei a exercitar os cortes até não mais usar o gerúndio, ou seja, a forma invariável da flexão verbal, resultante da mudança do r final do infinitivo em ndo: cantando, sofrendo, sentindo, pondo, e que corresponde a um adjunto adverbial; às vezes aparece regido da preposição em (Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, publicado pelo jornal O Globo).
Da faculdade em diante, este hábito virou um curioso vício. É impossível mensurar o volume de textos que redigi como jornalista, professor universitário, atualmente, como consultor empresarial. Todas as linhas, inclusive as particulares, sem gerúndio. No banheiro da minha casa, de picardia, tem uma placa: “Sorria!!! Aqui também você é filmado”, e não, “Sorria!!! Você está sendo filmado”, conforme a frase-padrão sobre a presença de câmeras que consideram todos bobos e suspeitos. Este vício teria a simpatia do escritor Graciliano Ramos, que jogava tinta no gerúndio sem pena: “Ele torna o texto impreciso e pastoso”. Vira hoje referência para os adversários do hábito de se exceder nesta forma verbal, para aqueles que colocaram em circulação na internet o Manifesto Contra o Gerundismo. Ouvir das atendentes de 0800 frases como “uma vez comprando o senhor vai estar recebendo o produto…”, causa arrepios em quem ainda preza e briga contra o vale-tudo na língua portuguesa.
Não há dúvida, quanto menos gerúndio se usa maior clareza e objetividade se consegue no conteúdo. Sorrateiro que só ele, o gerúndio traz a tendência para a ampliação da narrativa e, por conseqüência, embaraço das palavras e idéias. Se a pessoa procura evitá-lo, melhor será a precisão, a compatibilidade entre o texto e o fato. Destacados escritores e jornalistas são fortes aliados no combate ao gerúndio para que possam levar aos leitores os acontecimentos, as histórias e opiniões de forma nítida, sem prolongar, sem espichar em demasia os parágrafos. Importante: na guerra antigerundismo é necessário dar significativo desconto para o meio religioso. Transmitir esperança, falar da ação pelo próximo, fazer devoção exigem a presença do gerúndio: “Indo por este caminho, você chegará lá!”; “Estaremos fazendo vigilia pelos menos afortunados”; “Rezando encontraremos Deus”.
As pregações religiosas necessitam passar o sentimento de continuidade, de salvação em andamento, de um amanhã próspero e, na insistência-persistência dentro deste ambiente, são inevitáveis sermões e mensagens benzidas do início ao fim com verbos no gerúndio.
Como não poderia deixar de ser, escrevi Gestão & Marketing: agressiva solução para levar a sua empresa ao lucro (editora J. Di Giorgio) sem gerúndio. No seu estilo, o livro é um novo passo para revalorização da língua e da redação; no conteúdo, traz algumas ousadas idéias empresariais e sociais. Confira.

José Renato de Miranda
rdemiranda@consultoriadeimpacto.com.br 
www.consultoriadeimpacto.com.br / www.empresafamiliarconsultoria.com.br

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