O brasileiro não sabe sustentar o sucesso

Comportamentos e cultura do brasileiro baseados na rejeição à disciplina, ao planejamento, na exagerada praticidade, na correria e no imediatismo, tornam-o presa fácil, aliás, facílima para os objetivos e a velocidade tecnológica. Na rejeição à disciplina e no excesso de praticidade, há um importante acréscimo no seu perfil, no jeito de ser: o brasileiro adora o contato humano, o envolvimento pessoal, e é extremamente habilidoso e carismático para relacionamentos em negócios, vendas, condução de equipes para tarefas operacionais e gerenciais.

Os números das operadoras de telecomunicações e lojas de eletrônicos colocam o Brasil na liderança mundial de aparelhos, acessórios e planos. Trouxeram o que o brasileiro precisava para satisfazer o apetite pela conversa, bate-papo e falação generalizada.

Sobre o nosso jeito de ser, acompanhe o conteúdo deste artigo, foi escrito após fato real ocorrido numa das atividades de consultoria:

”Abraçamos o prazer ou a vitória do momento sem medir consequências”

Na Copa do Mundo 2014, a Seleção Brasileira venceu a da Colômbia nas quartas de final. No dia seguinte, a antes preocupada e tensa Seleção começou a aparecer na mídia em cenas de descontração, de eufórico otimismo, treinos liberados, declarações sobre a final contra Holanda ou Argentina, enfim, de repente, começou a existir o clima do “já ganhou”. Número significativo de torcedores e jornalistas davam vazão ao “vamos chegar lá!”.

Espera aí, como se até então a Seleção jogava tão mal que o pessimismo era geral?! Se as vitórias anteriores passaram perto do abismo do vexame?!

Pois este clima que, de repente, tomou conta da Seleção é reflexo do nosso jeito de ser pessoal, familiar ou profissional. É característica histórica, típica do brasileiro a facilidade para gerar o clima euforicamente otimista; para viver o “já ganhou”, “ninguém me segura”; para abraçar com força o prazer ou a vitória do momento sem medir consequências. Basta um passo mais largo e bem-sucedido, para os difíceis degraus anteriores serem esquecidos e os próximos superados por uma “inabalável competência conquistada”, ou seja, após a exaustiva sequência de jogos da Croácia à Colômbia, nas quartas, seria tranquilo vencer Alemanha nas semifinais e levantar a taça contra o finalista.

Somos assim, não sabemos administrar avanços, principalmente quando, juntos, tornam-se sucesso, realização, fama. O brasileiro se atrapalha para lidar com o crescimento em qualquer ambiente ou fase pessoal, familiar ou profissional:
Se vencemos partidas seguidas, já fazemos da competição do jogo uma exibição para arquibancada; se vamos ganhar um dinheiro extra, já gastamos por conta; se o negócio dá certo, já iniciamos abertura de filiais; se nosso filho é uma gracinha, a família vira ninhada…

A empolgação bate à toa, logo no início e nela passamos a viver. No momento, sem dúvida, é bom demais, show! Porém, depois a deliciosa curtição do prazer pode ter sabor amargo. Veja consequências dos exemplos colocados no parágrafo anterior:
Na semifinal, na humilhante goleada 7 a 1, o 1º e o 3º gols da Alemanha aconteceram por exibicionismo e relaxamento; milhões de clientes de cartões de crédito e bancos estão com carteiras fechadas pelos endividamentos; instituições registram índice de mortalidade infantil empresarial – cerca de 70% dos negócios entram em falência até o 4º ano de fundação; das crias em casa vem confusão diária pelos desgastantes pedidos de apoio a parentes, empresas e governos.
Reside em nós o curioso sentimento subconsciente de que o avanço de hoje continuará automaticamente a evoluir, que o nosso sucesso tem longa validade ou é vitalício, em específico, que planejamento e disciplina são dispensáveis, secundários.
Faz parte da raça brasileira, é genético. Somos seduzidos pelo “agora”, sem pensar nas consequências. A propósito, muitas delas poderiam ser positivas, espetaculares se houvesse disciplina para sustentá-las. Voltemos aos exemplos:
Brasil hexa, renovação do cartão com o dobro de crédito, filiais bem estruturadas no modelo franquia, mais filhos com plano e paz familiar.

Vamos lá! Com transparência! Somos sim, um sucesso em energia, vontade, gosto pela vida, calor e relacionamento humano; nascidos com espetacular habilidade individual em inúmeras áreas: esporte, música, cultura, empreendedorismo etc. Porém, muito ruins na manutenção, na continuidade do que conquistamos pelos nossos dons. Na sequência iniciativa-avanços-crescimento, está o potencial do brasileiro; na sequência organização-amadurecimento-sustentação, estão as deficiências que quebram a regularidade das conquistas.

Comum ouvir que o brasileiro é “maravilhosamente criativo”, que “inventar” é a sua notável virtude, mas tamanha exaltação é discutível: quais são as estrelares e exclusivas criações? Quantas são as brilhantes inovações de repercussão mundial?

Somos criativos como outros povos… nada especial, o que temos de “maravilhosamente diferente” é a capacidade para relacionamento, para articular, integrar, envolver pessoas e motivar ações. Temos perfil empreendedor nato: tomamos iniciativas, com desenvoltura atraímos grupos, avançamos nos relacionamentos, nos objetivos e progredimos. Sabemos contornar conflitos, acomodar divergências, passar por embaraços pessoais ou coletivos como raros povos no planeta. A capacidade para relações humanas, sociais e comerciais é o dom que promove brasileiros a cargos corporativos e diplomáticos no exterior.

Este domínio para condução de pessoas e acontecimentos criaram duas arrogantes manias:
“Não se preocupe, no final dá tudo certo”
“Vamos ver isso depois, na hora a gente resolve”

Logo, a natural versatilidade para contornar situações das mais diversas faz com que deixemos tudo para cima da hora, virou hábito!

Não há planejamento, nada é urgente. O foco é no “agora”, no clima da excitação, da correria com absoluta resistência para disciplina, para refletir sobre o que ocorre de positivo, negativo e projetar próximas etapas. De “agora” em “agora”, os avanços acontecem e os problemas também: os resultados oscilam em meio a quantidade de desgastes, cai a regularidade rumo aos objetivos e começa o declínio – não dá para resolver “agora” o que acumula e não é tratado com tempo e critério.

A resistência do brasileiro às atividades organizadas, à gestão, tira a sustentação dos resultados obtidos pelo próprio potencial; temos o sentimento da conquista, quando apenas invadimos, de que vencemos, quando só pulamos etapas.
O interessante é que, em alguma obrigação, algum objetivo, na medida em que o brasileiro aceita a disciplina, ele triplica os meios para superar, evoluir e sustentar com êxitos até além das expectativas! Quando equilibramos o versátil talento (empreendedorismo) com a disciplinada postura (gestão), ninguém segura! As Seleções de 70, 94 e 2002 tiveram a união dos talentos individuais com a sustentação da postura dos disciplinados; as Seleções de 82 e 2006 tiveram a vibrante valorização dos talentos e entraram para o arquivo dos derrotados. Se as Seleções tivessem comandos voltados para tal equilíbrio empreendedorismo-gestão, às vezes, quem sabe, o Brasil poderia perder uma Copa do Mundo…

Somos naturalmente empolgados e empolgantes, turistas nos adoram! O jeito de ser é da nação, é cultural, não cultivamos o passado nem projetamos o futuro (menos de 08% dos brasileiros fazem seguro de vida), somos o presente, imediatistas. Questão de raiz:

O asiático é metódico, o alemão hiperdeterminado, o americano obsessivamente invasor, o inglês cronometrado. Porém, estão sempre atentos, com direção, foco, planejam adaptações às tendências da evolução da humanidade.

O comunicativo, improvisador, articulado brasileiro deve entender que entramos numa nova Era, com formato gestor, organizador, disciplinador, em que a sociedade se fortalece em regras e sistematizações viabilizadas pela fascinante tecnologia.

Inovações e imitações acontecem em velocidade anos luz, a competição dispara. A cada gol é preciso ter meio-campo fechado e compacto para manter o placar. A Era Digital implanta uma conectada, pirotécnica globalização. Bonita ou feia, desumana ou robótica, encantadora ou depressiva, não importa, a sistematização social define que é indispensável saber fazer gestão para seguir adiante.

A globalização é gestora, seja na colheita no campo, no GPS do painel do carro, no controle da tevê, na multitarefa celular, nas câmeras escondidas, na cobrança dos impostos, na liberação de dinheiro, nas compras do supermercado ou na situação em que você estiver no instante desta leitura, por trás haverá uma necessidade de organização.

Pare e pense: todas as referências de sucesso são talentos com funcionamento em cima de sólida base de gestão (Steve Jobs, Zidane, Gisele Bündchen, Steven Spielberg, trio AMBEV…).

Cabe ao brasileiro frear a correria e unir empreendedorismo-gestão, o seu jeito de ser com o modelo da globalização.

Não copiar, pelo contrário, ter sabedoria para equilibrar. Procurar adaptar, capitalizar ao máximo os pontos positivos, aquilo que faz bem feito.

Fazer a Gestão da Correria de acordo com o seu ambiente (esporte, empresa, casa…), será mais estimulante, saudável, a propósito, que tal uma carreira empresarial e profissional comunicativa, calorosa, viva, integrada e… planejada?

José Renato de Miranda . Consultor
www.consultoriadeimpacto.com.br / www.empresafamiliarconsultoria.com.br

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