Ciclo do Ajeitamento: mercado era cúmplice, não é mais, e aí?

Nos cursos e palestras sobre gestão, periodicamente um tipo de pergunta me incomodava: “O senhor não acha que, mesmo como motivo para tantas críticas, o empresário brasileiro se mexe dessa e daquela maneira e, no final, dá certo, é bem-sucedido?”. Uma pergunta sempre com os seus seguidores na platéia por engrandecer a eficiência do brasileiro independente de programas e métodos de trabalho hoje tão badalados; questão até de auto-estima.
Dava a minha resposta, que podia satisfazê-los, mas não me respondia por completo. Analisei, pesquisei, aí sim, acabei com o que me incomodava.
Da década de 90 à virada do milênio ocorreu o que considero o fim do longo Ciclo do Ajeitamento, aquele tempo em que o desorganizado empreendedorismo viabilizava ou era suficiente para se vencer no mercado.
O brasileiro sempre foi empreendedor por natureza: idealiza, abre frentes, desenvolve, fecha negócios. Sempre montou a vida de trabalho com base na criatividade e facilidade para relacionamento. Com dom para criar e desenvolver, no empreendedorismo ele ajeitava inúmeras situações e avançava. Quando algo saía errado, argumentava com o cliente e convencia; a equipe era envolvida pelo clima vencedor e as obrigações trabalhistas correspondidas apenas parcialmente; mesmo endividado, fazia composição ou pulava de fornecedores; só pagava impostos parcialmente ou sob pressão; tinha canais para socorros financeiros – bancos ou venda de bens.
Dedicava-se a dar jeito, a arrumar as situações para aumentar o negócio. O fato a ser destacado é o comportamento das outras partes, elas alimentavam o ajeitamento: cliente aceitava desculpas e retornava; equipe não se preocupava em definir condições e formato de trabalho; fornecedor era tolerante e flexível; governo fazia concessões e a info-fiscalização não era feroz e precisa; contadores e gerentes de bancos tinham meios para ajudar no malabarismo.
Há décadas o brasileiro tocava negócios pela capacidade de contornar obstáculos com os dons da criação e relacionamento. Apoiava-se nas aplicações financeiras, sonegação escancarada e mercado fechado. Vencia não necessariamente pelo conhecimento empresarial e consciência profissional.
Pós-90 a cena mudou. O ajeitamento ganhou cercos no mercado: entraram em prioridade a gestão, a capacidade para gerenciar e dirigir, e os pontos de apoio ruíram… Da mesma forma que o empresário-empreendedor passou a ter que se profissionalizar, os cúmplices mudaram a postura: clientes vão para o concorrente ou Procon; equipe quer qualificação e segurança; fornecedor sem margens; impostos fiscalizados com malha cada vez mais larga e costura estreita; bancos dependem “do sistema” e documentação para socorros; a venda de um bem faz muito mal quando o dinheiro entra numa empresa que não gira como manda o novo mercado.
Na verdade, o mercado era cúmplice da sua maneira empreendedora de ser, abafava a baixa cultura empresarial e a aguda deficiência para gerenciar e dirigir.
Hoje mais consciente, a médio prazo o brasileiro irá unir método e dom: capacidade para gerenciar e dirigir mais criação e desenvolvimento. Vai-se assistir à queda do alto percentual de mortalidade infantil das empresas e ao surgimento de um perfil empresarial que será consagrado mundialmente.
O pique empreendedor tem que ser parceiro da gestão corretamente identificada com o negócio. Sem tal conduta, o empresário entra em falência, vende, faz fusão ou rola noites mal dormidas até atingir a reconstrução. Fica no desvairado empreendedorismo “desta e daquela maneira”, sem férias, com telefonemas e taquicardias nos curtos períodos de lazer. O fim do ajeitamento e a moderna estruturação fazem com que o empresário dê certo e tenha tranqüilidade pessoal.

José Renato de Miranda
rdemiranda@consultoriadeimpacto.com.br 
www.consultoriadeimpacto.com.br / www.empresafamiliarconsultoria.com.br

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